domingo, 19 de julho de 2009

“UMA MULHER CONTRA HITLER” – Fantasmas do nazismo ainda nos assombram hoje


“Die Letzen Tage” (Os Últimos Dias) ou “Uma Mulher contra Hitler” é outra obra de peso do moderno cinema alemão. Para críticos europeus, há algum tempo já se está produzindo na Alemanha unificada talvez o melhor cinema da atualidade. Pena só cheguem aqui poucos exemplares, muitos deles via TV a cabo. Desde o ressurgimento do Novo Cinema Alemão nos anos 70, quando pontificavam nomes como Rainer Fassbinder, Wim Wenders, Werner Herzog, Folker Schlondorff, Egon Monk, entre outros, o salto de qualidade tem sido evidente, enquanto a consolidação dos anos 90 e dos primeiros deste século nos trouxe Ottokar Runze (“O Vulcão”), Roland S. Richter (“O Túnel”, “Em Busca da Verdade”), Max Faberbock (“Aimée & Jaguar”), Tom Tykwer (“Corra Lola, Corra”), Wolfgang Becker (“Adeus Lenín!”), Robert Schwenke (“Plano de Vôo”), Oliver Hirschbiegel (“A Queda”) e Jo Baier (“Operação Valquíria”), para só ficarmos nestes vindos à lembrança.

Indicado para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2005, “Die Letzen Tage” conquistou o Prêmio de Melhor Atriz (também no júri popular), indicações para Melhor Diretor e Melhor Desenho de Produção, 2 Ursos de Prata no Festival de Berlim nas categorias de Direção e Atriz, afora o Prêmio Ecumênico do Júri. Produção do Broth Film/Goldkind Film, com participação do diretor Marc Rothemund e do roteirista Fred Breinesdorfer, “Die Letzen ...” se baseia em arquivos da Gestapo, nas atas e registros dos interrogatórios e nos procedimentos do Tribunal e até em relatos de testemunhas ainda lúcidas.

As ações se concentram em fevereiro de 1943, nos dezesseis últimos dias de vida dos irmãos Scholl, Sophie e Hans, da Universidade de München (Munique) no sudoeste do país, praticamente em dois únicos cenários: a sala dos interrogatórios e as celas sinistras, claustrofóbicas (tal como eram) da prisão para onde foram levados. Alimentam-se de diálogos significativos, quase um duelo verbal entre acusado e acusador, campo e contracampo, e nem poderia deixar de ser assim, mas estes são recriados com tal inventividade, respaldada pela interpretação impecável, a ponto de quase substituírem as imagens, como se reconstituíssem, via palavras, tudo quanto aconteceu na vida dos líderes da organização “Weiss Rose” (Rosa Branca) e da própria Alemanha nazista.

Marc Rothemund (1968- ), oriundo da TV e depois ex-assistente de Gérard Corbian e dos conterrâneos Helmut Dietl e Dominik Graf, estreou na direção com o filme “Das Merkwürdige” (1998) e logo fez “Harte Jungs” (2000), sucesso de público e crítica. Neste quase-documentário, Rothemund logrou superar todos os outros filmes sobre o tema, até mesmo o bom “Rosa Branca”, de Michael Verhoeven (1982). Sua direção é firme, segura, reveladora não só da sua competência na orientação dos atores em face do crescimento das tensões, como também dos princípios norteadores do mundo das imagens em movimento no cinema – o equilíbrio entre os ritmos interno e externo.

Assim, desde a abertura do filme, quando se vê o local sigiloso da tipografia improvisada, a impressão dos panfletos e a sua distribuição, o caminhar apressado pelas ruas e becos semi-obscurecidos, mala na mão, a entrada dos dois no prédio da universidade, o lançamento das cópias lá do alto, até a “contre-plongée” sugestiva de uma rosa branca na cúpula, são detalhes indicativos de um trabalho diretorial de primeira linha. A necessidade de concisão (pois o foco não é a Resistência Alemã ao nazismo, como em “A Operação Valquíria”, e, sim, Sophie e seu irmão) levou Rothemund a suprimir o detalhe do acaso desfavorável contra os irmãos Scholl. Na verdade, os dois foram vistos pelo porteiro antes da sirene para o reinício das aulas, quando jogaram os panfletos lá da amurada, isso porque Sophie demorou um minuto a mais e o servidor chegou minutos antes...

Destaquem-se também a movimentação de pessoas na prisão, o abrir e fechar de portas e a inserção do ataque aéreo aliado, quebrando uma zona de silêncio, e as bombas incendiárias caindo como flocos de neve a distância. Como muitos da Resistência aguardavam a invasão de tropas anglo-americanas para os próximos meses, e a execução dos condenados só se dava geralmente 99 dias após a pronúncia, percebe-se uma chispa de esperança em Sophie, ao contemplar o bombardeio de uma das janelas da prisão, talvez na realidade tenha até pensado em sobreviver. Esperança vã, pois a invasão da Normandia só se daria em junho de 1944...

Não há como omitir aqui a cena final da morte dos jovens, dada a publicidade em torno do filme e os “trailers” inconvenientes. Rothemund compôs o desenlace com alto senso fílmico: “close-up” da cabeça de Sophie, rosto angustiado à espera do golpe fatal da lâmina triangular precipitada do alto, quando planos negros ocupam a tela, ouvindo-se somente o som sinistro, dilacerante e assustador da máquina da morte inventada pelo malogrado Dr. Joseph Guillotin (1738-1814), ironicamente decapitado por ela mesma... Ocorreu realmente a presença do padre na cela da Sophie, sabendo-se ter sido ela religiosa protestante. A reza pode ter-lhe servido de algum conforto, mas para quem não aceita morrer tão jovem naquelas circunstâncias, ou para quem não crê em eternidade ou noutras vidas, as palavras do sacerdote soam como dúbia consolação.

A fotografia de Martin Langer é de marcante realismo e a música de R. Heil e J. Klimex, incluída no início e no final, recorda “hits” americanos da época, enquanto em momentos conflitivos se ouve o bater persistente do bumbo, como se para marcar o tempo prestes a esgotar-se para os condenados. Os atores se revelam excepcionais, com Julie Dentsch à frente, como poucas vezes se vê em situação dramática no cinema, de início na tentativa de enganar seu algoz, depois enfrentando-o com a verdade e recusando-se a delatar companheiros (lembramo-nos da definição de coragem dada por Hemingway, “A dignidade sob pressão”). Não lhe ficam atrás Gerald Alexander Held (“A Queda”) como Robert Mohr, o inquisidor, seu irmão Fabian Hinrichs e os demais coadjuvantes, mas André Hennicke se supera como o louco e histérico juiz Roland Freisler, carrasco de todos quantos direta ou indiretamente atuaram contra o regime. Sua morte num bombardeio aliado, quando caíram bombas sobre o tribunal, salvou alguns implicados nos atentados ao Führer, um deles o estóico Cel. Fabian Schlanbrendorff (“Oficiais contra Hitler”). Ao ser condenada por Freisler, Sophie disse-lhe com altivez: “Logo vocês estarão no nosso lugar”.

No interrogatório de Sophie, o algoz parece entender as razões dela mas sugere igualmente o seu dever de ofício para com o nazismo, a quem deve seu “status” atual. Bastante significativa, portanto, é a troca de olhares entre os dois próximos ao final. Houve quem visse na expressão dele um toque de arrependimento, outros de sua correção como agente do sistema. Sophie pode tê-lo visto como simples peça de uma engrenagem maldita.

“Uma Mulher contra Hitler” é um filme raro. A ver, rever e refletir.